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25 de Novembro de 2020

Uma decisão para 7 años de punição

A Mediação como “uma intervenção pacífica de acerto de conflitos para produzir um acordo, sendo a solução sugerida e não imposta às partes interessadas”.

Solange Lima, Auxiliar de Serviços Jurídicos
Publicado por Solange Lima
há 2 meses

https://www.youtube.com/watch?v=XVL7-GkLO4M&feature=emb_title

O filme espanhol 7 Años (Siete Anõs), dirigido por Roger Gual; conta uma história que explora os diversos dilemas dos relacionamentos e da própria existência humana tendo como ponto de partida uma situação-limite, na qual as personagens são obrigadas a retirar suas máscaras tradicionais.

Na narrativa “O Caso dos Exploradores de Caverna”, de Lon Fuller, onde é possível observar uma contraposição de valores positivos e naturais, um desmoronamento de terra deixa cinco membros de uma sociedade espeleológica presos em uma caverna, os quais optam por decidir, na sorte, quem servirá de alimento para os demais permanecerem vivos até que o resgate chegue ao local. Dias depois, sãos e salvos, os quatro sobreviventes vão a julgamento por homicídio.

Há situações um tanto inusitadas como a citada acima, que apesar de não colocarem o dueto morte/vida como objeto do pleito, podem requerer questionamentos acerca do que é moralmente justo frente às nuances particulares de cada um dos envolvidos, no intuito de alcançar um consenso, um veredicto. É sobre isto que trata o filme 7 Años.

O filme narra o drama de quatro amigos bem sucedidos, sócios de uma empresa da área de tecnologia em Madri, que se descobrem investigados pela Receita Federal espanhola. Através de uma informação privilegiada ficam sabendo que têm um problema fiscal, que serão presos por sonegação dolosa de tributos de seu estabelecimento e decidem usar um deles como “bode expiatório” a partir de debates e uma votação no grupo, onde o indicado ficará preso por 7 Años.

A receita federal descobre uma transação ilegal que todos estavam cientes, onde boa parte do dinheiro é depositado em contas na Suíça. A advogada da empresa informa que todos os sócios podem ser presos, exceto se um deles assumir ter agido sozinho. Essa pessoa ficará reclusa, detida por 7 (sete) anos em uma prisão, enquanto os outros ficarão eternamente gratos.

Na trama, vale o destaque para um jogo de totó/pebolim logo no início do filme, notadamente uma alusão à situação das personagens, onde estão presos uns aos outros.

Uma decisão crucial a ser tomada durante uma noite pode evitar a ruína da sociedade e a prisão de três dos envolvidos. Para tanto, um deles deve atribuir a si toda a responsabilidade criminal, por “livre e espontâneo acordo”, e sacrificar sua liberdade por 07 (sete) anos em prol dos outros sócios.

Mas quem será o escolhido e quais os argumentos que o (a) fará confessar o crime e suportar o cárcere por tanto tempo?

Para tomar o que julgam ser a decisão mais justa, o grupo contrata um mediador para ajudar na decisão de quem vai ser intimado a se voluntariar para cumprir a pena. O mediador ouve todos os envolvidos, não permite que se agridam, mas que digam por quais razões devem permanecer fora da cadeia.

A negociação que ocorre entre as personagens Verônica (Diretora Financeira), Luis (Diretor de TI), Carlos (Diretor Comercial) e Marcel (Diretor Executivo) ilustra uma oportunidade para analisar um processo de grupo marcado por etapas de desenvolvimento e comportamentos que deixam as máscaras cairem. Em um tenso diálogo, os segredos e as aspirações de cada um dos sócios são revelados; cada um expõe seu ponto de vista, mas também tem a oportunidade de revelar como enxergam a seus companheiros e a si mesmos.

No início do processo, pela fala de Marcel que explica ao mediador a situação pela qual estão passando, percebe-se que o grupo tentou diversas modalidades para sozinhos decidir quem irá para a prisão. Como não obtiveram sucesso e há divergência de posições, pois cada um pensava somente no interesse individual, decidiram buscar a ajuda de um mediador.

A mediação, segundo MARTINELLI (2006, p.71), é “uma intervenção pacífica de acerto de conflitos para produzir um acordo, sendo a solução sugerida e não imposta às partes interessadas”, podendo se estender por tempo indeterminado, pois depende das variáveis que envolvem o conflito a ser solucionado.

O mediador não deve estar diretamente envolvido no conflito, e é uma pessoa neutra. Para Lewicki et al. (1996 apud Martinelli, 2006), o mediador tem baixo controle dos resultados da mediação, mas alto nível de controle sobre o processo, pois “a função básica do mediador é fazer com que as partes definam algumas regras de procedimentos, concordem em se ouvir mutuamente e, finalmente, levar as partes a uma solução negociada entre elas” (MARTINELLI, 2006, p.73).

O medo diante da iminente tomada de decisão permeia e tenciona o clima das relações no início da negociação. Da perspectiva da negociação, encontram-se em um estágio potencial em que o conflito ocorre em função do problema de comunicação entre os sócios, pois as diversas sugestões não são aceitas facilmente por todos. Nessa etapa, o papel do mediador é sondar os interesses, auxiliar na comunicação e buscar acordos entre os membros do grupo para diminuir as resistências e criar um ambiente propício à mediação mediante a aceitação dessa intervenção.

Em um contexto de desentendimento, o mediador convida ao grupo para refletir o que cada um quer desse processo, momento em que diminui a defensiva e agressividade entre si. Com o conflito explícito, inicia-se a negociação colaborativamente a partir do dispositivo tabuleiro de xadrez. O mediador pede para cada um escolher uma peça de xadrez com a qual se identifiquem explique o que outro sócio faz na empresa a partir da peça escolhida. Os demais personagens podem agregar com comentários. O jogo segue até que todos tenham falado de seus sócios. As explicações tendem a ser positivas, mas temperadas com sarcasmo e velada agressão para, em seguida, se tornar acusações e insultos entre os membros do grupo. Há muitos sentimentos e julgamentos ocultos entre os sócios, marca da sombra de cada um no jogo.

O filme 7 Años conta uma história que explora os dilemas das relações interpessoais tendo como ponto de partida uma situação-limite: o cárcere de 7 (sete) anos de um dos sócios. A trama ocorre na sede da empresa na qual os quatro sócios se descobrem investigados pela Receita Federal espanhola. Como cometeram crimes contra o fisco, terão que decidir em curto espaço de tempo qual deles deve assumir a culpa, livrar os outros três da prisão e assegurar a sobrevivência de sua companhia.

O clima de tensão é nítido do filme. Com o avanço do debate e precisando se chegar a uma conclusão, já que a possível ação do fisco e da polícia se torna iminente, começam a ser revelados os segredos e as verdadeiras aspirações e concepções de cada um dos sócios. São expostos não somente os pontos de vista deles a respeito de seus companheiros como também a forma como enxergam a si mesmos e suas visões de mundo. Os segredos de cada um vêm à tona, um sócio é jogado contra o outro e o objetivo é comum a todos eles, o de não ser o que irá se sacrificar pelos demais.

O modo como a ação se desenvolve e é conduzida gera sentimentos ambíguos em quem assiste. Muitas vezes o sentimento será de empatia; em outros, o de repulsa, forçando também à reflexão sobre os temas que estão sobrepostos no filme e que são bastante atuais como a questão da prevalência do trabalho na vida cotidiana, que o leva a interferir de forma muitas vezes desastrosa no âmbito privado.

Todos os envolvidos discutem através de um debate mediado sobre a imprescindibilidade do indivíduo no âmbito profissional e pessoal versus embates éticos, morais e sociais que circundam o dilema.

Em um determinado momento do filme, percebe-se a possibilidade de existir uma determinada quantia a título de "recompensa" para quem se voluntariar a passar 7 (sete) anos de sua vida prisão, sem entregar os demais sócios. Também, havia algo de curioso com o mediador, devido a ligação telefônica realizada no início da mediação. Ele também, externa a opinião de que aceitaria a pena por muito menos que os 30 milhões sugeridos e, o filme termina com a imagem desse mediador, apresentando uma expressão satisfatória.

É o cinema espanhol nos trazendo para a realidade de pensarmos como agiríamos em determinada situação. Uma problemática bem apresentada, com toda a tensão que a situação exigiria se real fosse, deixando o espectador atônito, também, diante de uma cenografia estática com apenas um ambiente, a sala de reuniões da empresa, o filme prende a atenção e todos, que são levados a questionar seus próprios valores.

Os comportamentos promotores do processo de negociação são a identificação dos interesses individuais, clareza nos critérios de decisão, oportunidade de participação para todos a fim de obter maior colaboração entre as partes. Os comportamentos impeditivos ao processo de negociação são a ausência da clareza do conflito, divergência de posições, foco somente no interesse individual, competição e agressividade física ou verbal. Percebe-se que nesta negociação, o papel do mediador foi fundamental para criar um ambiente propício para a expressão dos conteúdos psíquicos reprimidos e/ou projetados entre os membros do grupo. Ele auxiliou com técnicas para qualificar a comunicação, sondar os interesses, criar a colaboração e decisão compartilhada, assim como conduzir o grupo na direção do objetivo final.

7 Años é um drama muito reflexivo, que traz à tona toda a hipocrisia e hostilidade humana, com seus valores “sócio morais” bizarros, os quais, exteriorizados mediante diálogos ácidos, deixam mais transparentes a visão sombria do quão longe a humanidade é capaz de chegar para não violar o seu bem maior que é a liberdade.

REFERÊNCIAS:

7 AÑOS. Direção: Roger Gual, Produção: Cristian Conti e Federico Jusid. Realização de Netflix. ESPANHA: 2016. 78min. Título original: Siete Años.

Ficha Técnica do filme 7 Años

Título no Brasil:7 Años

Título original: Siete Años

Gênero (s): Suspense

Estreia no Brasil: 28 de Outubro de 2016

Classificação indicativa: P - PENDENTE

País: Espanha

Idioma: Espanhol - (Cópias dubladas disponíveis)

Diretor: Roger Gual

Roteirista: Jose CabezaCristian Conti

Elenco: Juan Pablo Raba, Juana Acosta, Alex Brendemühl, Paco León, Manuel Morón

FULLER, Lon L. O Caso dos Exploradores de Caverna. Tradução e notas por Ivo de Paula, LL. M. São Paulo: Editoria Leud, 2008, 70 p.

MARTINELLI, Dante P. Negociação e solução de conflitos: do impasse ao ganhaganha através do melhor estilo. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2006.

  • Atividade apresentada ao Centro Universitário Estácio da Bahia, Curso de Pós-Graduação em Direito Civil e Direito Processual Civil, como requisito parcial para conclusão da MECANISMOS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS em maio/2020.

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